9 de julho de 2008

O AMANHECER NA ROCA

Era até estranho que tivessem lhe arranjado um lar em pleno centro da cidade, com ruas cercadas de prédios de apartamentos, residências e lojas comerciais por todos os lados. Quando novo, ensaiava cantos meio engasgados, solfejando notas como aprendizes de música. Claro, faltava-lhe um irmão ou vizinho com quem pudesse aprender ou imitar os cantos. Foi um autodidata e por fim sabia como mandar pelos ares e para longe o seu cantar.
Ultimamente, não tenho ouvido os sonoros cantos do galinho. Por certo, bandeou para outro galinheiro, uma chácara, sítio ou mesmo residência de algum lavrador das redondezas, onde continua na sua missão de relógio do romper dos dias.
Me lembro do alvorecer nas fazendas e bairros rurais, quando galos madrugadores anunciavam a chegada de um novo dia. Um cantava aqui, outro respondia lá na frente, num sentimento de solidariedade. Parecia um canto transformado em conversa que ia rompendo as barreiras das matas, levado para rincões longínquos. Na medida que o sol despontava davam por encerrada a incumbência que cada um tinha e se punham nos terreiros como chefes compenetrados de suas famílias bem-comportadas.
O amanhecer na roça é um resplandecer da natureza, embelezada pelos cantos de passarinhos. Cada um com seus afinados acordes, nas matas ou nos quintais, em árvores floridas ou nos aramados que cercam divisas de residências.
Como é bonito se ouvir o canto de um solitário sabiá empoleirado em galho de uma laranjeira. De colorido simples, cinzento-oliváceo, branco, do campo, pardo ou avermelhado, são populares e bons cantores. O sabiá-laranjeira tem um canto nostálgico e escritores o cantam em prosa e verso.
Nessa espécie de pássaros tem o sabiá-cavalo, que deve ser um bom cavaleiro; o sabiá-cachorro, mas desconheço se seu canto é parecido com latido; não sei se o sabiá-ferreiro bate bem bigorna; o sabiá-tropeiro deve ser uma boa companhia dos condutores de tropas. Uma série de outras denominações por todas as regiões do Brasil. Tem até o sabiá-verdadeiro.
Nos entardeceres do campo, o cantar dos sabiás é como uma canção de seresteiro em noite de luar, sob a janela da namorada, ao som de violão, flauta ou violino.
Só no amanhecer na roça se pode ouvir o piar melancólico do inhambuxororó e do inhambuxintã, quando na procura das sementeiras de roçados.
Pintassilgos, papa-capins, bem-te-vis, tuins e outros pássaros, empoleirados em algum galho seco ou em revoadas, levam seus cantos ao longe dos sítios e fazendas. Formam uma orquestra solidária às bênçãos de um dia de felicidade. Somente quando o sol é mais forte se escondem à sombra de frondosas árvores para descanso reparador.
A chuva mansa como gotículas que batem no telhado é uma suave manifestação das nuvens que vão e vêm, enquanto o azul do céu fica escondido. As batidas das águas nas pedras da cachoeira soam nas madrugadas como lenitivo a uma noite de insônia.
Que saudade dos amanheceres na roça e dos encantos da natureza!

2 comentários:

Anésio Silva disse...

Muito bonito e tambem muito poetico.
Pena que paraisos como estes sao destruidos pela expeculaçao imobiliaria

Anésio Silva disse...

Muito bonito e tambem muito poetico.
Pena que paraisos como estes sao destruidos pela expeculaçao imobiliaria