15 de agosto de 2007

CARTA A UM PAI QUE SAIU DE CASA


Sabe, pai, eu não me esqueço do dia em que você saiu de casa. E nunca mais voltou. Fico sempre pensando porque isso aconteceu. Mesmo depois de tanto tempo. Mesmo depois que me fiz homem, já com a consciência de que isso acaba sendo normal na vida de toda pessoa. Resolvi procurar você, pai.
Então, voltei meu pensamento ao passado, num sonho. Você me pegando pelas mãos, me ajudando a dar os primeiros passos, me conduzindo para frente, para o futuro, falando para não olhar de lado, abrindo os braços para me equilibrar.
Ainda pequeno, quantas vezes acompanhei você em pescarias, naquele ribeirãozinho que me parecia algo enorme, com suas corredeiras violentas, com uma fundura que metia medo. E era um simples, manso e inofensivo riozinho onde aprendi a nadar e depois me orgulhava em passar de uma margem a outra, numa arrancada só.
Lembro-me do primeiro peixinho que fisguei. Todo feliz apanhei-o com as mãos e tomei tremenda ferroada. Era um mandizinho amarelo, mas com um ferrão que me fez sentir terrível dor e chorar bastante. Você riu da minha inocência. Depois, quantas ferroadas levei na vida!
E você, pai, saiu de casa e nunca mais voltou. Eu sempre achava que você voltaria.
Fui crescendo. Como a maioria dos garotos, comecei a jogar futebol. Orgulhoso, tirei a primeira fotografia com a camisa do clube. Lembra-se? Você me olhou feliz, talvez, pensando que ficaria um craque, como você. Ainda guardo com muita saudade aquela foto.
E o tempo foi passando. Ah, esse tempo que passa inexorável!
Bem, pai, você sabe que constitui a minha família. Também ensinei orgulhoso cada um de meus filhos a andar. Como você fez comigo. Passo a passo. Pelo menos tentei passar para eles o que aprendi com você. Um rumo certo na vida. Isso me faz feliz, pai.
E como o tempo passa rápido! Quando se é moço, não se vê a hora de chegar o domingo, o aniversário, o Ano-Novo. Depois, ah, não dá para fazer o tempo parar.
Então, pai, resolvi parar um pouco em frente ao espelho. O pente deslizava mais rápido. Começou a aparecer um fio de cabelo branco aqui, outro ali. Uma ruga na testa, outra no canto dos olhos. Lembrei-me de você, quando eu era jovem. Mas eu não sabia porque nasciam os cabelos brancos e nem porque o rosto ficava marcado por rugas.
Lembro-me o dia que você saiu de casa, pai, e nunca mais voltou. Eu sei onde você mora. É uma casa que não tem o luxo daquelas construídas nas vizinhanças. É humilde, nem janelas tem, com uma porta só, por onde, de vez em quando, entra uma pessoa. Mas abrem e fecham a porta tão depressa, que nunca vi você lá dentro.
Sabe, pai, neste Dia dos Pais fiquei um tempão em frente sua casa. Está bonita, pintada de novo. Mas, pai, fiquei muito triste. O pintor cobriu de tinta o seu nome.
Ah, pai, como é triste saber que você não voltará nunca mais.

Um comentário:

Maria Emília M. Redi disse...

Este seu texto fez com que as lágrimas da saudade lavassem meu rosto. Obrigada! Maria Emília