27 de julho de 2008

JOGANDO CONVERSA FORA

Não se sabe se a velhice é um prêmio ou um castigo. É isso que se fala à boca pequena. Há uma razão de ser para que ela seja assim entendida. Acontece que se a saúde não passar por nenhum abalo pelos caminhos da vida, isto é, se a pessoa chega à terceira ou quarta idade em perfeitas condições físicas e espirituais tudo bem. Mas nem sempre é assim. O passar do tempo deixa marcas no organismo que exigem atenção, e a procura de um médico –– ou de vários –– é indispensável. Bem, daí são recomendações mil. Na alimentação, nos exercícios físicos, nas caminhadas, repousar cedo, evitar isto e aquilo e, principalmente, muito cuidado com as intempéries, sobretudo no inverno. Quando a pessoa chega na terceira idade ela leva nas costas a aposentadoria, merecida, afirmam, depois de algumas décadas de trabalho árduo. Mas, quando chega perto dessa situação, um sem-número de conselhos bate na sua cabeça, recomendações de amigos nem sempre bem aceitas. Dizem para tomar cuidado, porque parar de repente pode ser complicado. É preciso arranjar outro emprego, nem que seja leve, somente para ocupar espaço, preencher a vida ociosa que passará a ter. Pior quando falam que fulano bateu as botas depois de pouco tempo aposentado. Um outro bateu com as dez porque não agüentou tanta ociosidade. Um terceiro passou para o andar de cima porque ficou isolado, sem a companhia dos colegas de trabalho, e tinha dificuldades em fazer novas amizades.
Bem, acho que esse é um tipo de conselho extremamente desagradável. O primeiro pensamento que vem à cabeça do aposentado é poder gozar a vida, viajar, conhecer lugares nunca antes visitados, sem ter que levantar de madrugada, com horário estabelecido para entrar no trabalho.
E tem mais. Como é saudável para o espírito e para a mente reunir-se com pessoas, ainda que sem aquela amizade íntima, para prosear, jogar conversa fora! Falar de política, futebol ou mesmo amenidades para passar o tempo.
Uma passada por praças e jardins da cidade, nas manhãs de sol preguiçoso, é suficiente para preencher de uma maneira bastante alegre o tempo que uma pessoa precisa depois de aposentado.
Claro que os tempos são outros. Casais juntam-se as mãos, caminham sem muita pressa e ao primeiro banco à disposição sentam-se. Ficam a admirar o céu azul, as flores que enfeitam os jardins, a mansidão das andorinhas nos seus vôos sem destino ou mesmo a algazarra das crianças brincando nos escorregadores, balanços, gangorras, e se distraindo com outros brinquedos, sob olhares dos pais sempre atentos.
Duas senhoras de cabelinhos lisos e brancos conversam animadamente à sombra de frondosa árvores, uma segurando uma bengala, para qualquer eventualidade, e outra um guarda-chuva, prevendo mudança do tempo.
Avós levam os netos a passear, compram presentes, guloseimas, mesmo para os gordinhos, para o desespero das mães. Brincam com eles, distraem-se, voltam ao tempo de criança. Isso não é bom para um aposentado? O que não é bom é ficar isolado, triste, esquecido na cadeira do papai em um canto da sala, recebendo uma nesga de sol que se infiltra pelas frestas das janelas. Não poder assistir a programas da televisão porque os olhos teimam em diminuir a distância e os ouvidos pedem a proteção das mãos em conchas.
Jogar conversa fora também faz parte da felicidade de quem já cumpriu suas obrigações na vida. Depois, é preciso esquecer o ditado que afirma que é mais bonito o choro de uma criança que o sorriso de um idoso. Bonito mesmo é que ambos possam sorrir juntos.

CORRESPONDÊNCIA DIÁRIA


Tempos atrás, quando o carteiro batia à porta de casa era recebido em meio a grande expectativa, em virtude de prováveis novidades ele estivesse portando em carta que entregava. Uma carta apenas, às vezes em espaço de tempo longo, porque a correspondência desse tipo ocorria normalmente entre parentes distantes, nem sempre com freqüência e apenas quando se registrava algum evento importante e o assunto merecia comunicação imediata. Fora isso, raramente havia contato com o funcionário do Correio, a não ser nos encontros de rua, para cumprimentos costumeiros, tão considerado era pelas famílias.

Outro dado interessante é que a correspondência demorava algum tempo para chegar até o destinatário, a não ser quando indicava uma condição expressa, provavelmente em função dessa necessidade e porque o assunto que portava revelaria urgência de conhecimento à pessoa endereçada.

Hoje não é assim. Os tempos passaram e provocaram uma mudança para facilitar o atendimento ao público. Na atualidade é mais que expressa. Foi criado o “Sedex”, com entrega em dois ou três dias e se exigido até em 24 horas. Então, melhorou sensivelmente, mesmo porque outros meios de comunicação entraram pra valer como uma espécie de concorrente em potencial. Entretanto, hoje, o volume de correspondência é maior.

Ao toque da campainha, vou receber a correspondência no portão de casa. O carteiro, solícito e atencioso, sorri, agradece e se despede, depois que assino recibo de um pacote especial.

A pressa me faz deixar tudo sobre uma escrivaninha. À noite, começo a abrir a batelada de envelopes. Neste tempo em que tudo é oferecido com muita facilidade, pouca coisa se aproveita da correspondência diária. Mas se é obrigado a ler carta por carta, ou, pelo menos, olhar rapidamente cada folder, sempre atraente. A primeira mensagem é uma dessas correntes que me prometem ficar rico em pouco tempo. É só mandar umas 10 mil cópias a amigos e inimigos. Trazem algumas advertências, entre elas evitar interrompê-las, pois pode acontecer uma tragédia na família.

Outra carta me diz que fui premiado com um título de sócio de um clube recreativo. Que bom, penso. Depois, leio que só pagarei módicas mensalidades e que é perto, só uns 200 quilômetros de onde moro.

Abro envelope por envelope, seleciono os assuntos, amasso, faço uma bola, miro o cesto e “chuá”, acerto em cheio. Três pontos a meu favor. Bem, o último me desperta interesse. Empresa de turismo oferece facilidade para uma viagem a Santiago de Compostela. Cartões postais maravilhosos.

É tarde, vou descansar, mas fico pensando: conhecer um caminho cercado de tanto misticismo, cantado em prosa e verso por tanta gente, fazer novos amigos e rezar. Sobretudo, fazer orações compenetradas para que os 800 quilômetros de caminhada me façam um turista feliz e convicto da fé que tenho.

Mas eis que o cantar do cuco no relógio da sala me faz despertar, pois é hora de começar um novo dia, cheio de compromissos inadiáveis. Que pena! O que aconteceu nessa viagem sonhada contarei em outra oportunidade, se houver tempo. Sonhar não faz mal a ninguém.

9 de julho de 2008

O AMANHECER NA ROCA

Era até estranho que tivessem lhe arranjado um lar em pleno centro da cidade, com ruas cercadas de prédios de apartamentos, residências e lojas comerciais por todos os lados. Quando novo, ensaiava cantos meio engasgados, solfejando notas como aprendizes de música. Claro, faltava-lhe um irmão ou vizinho com quem pudesse aprender ou imitar os cantos. Foi um autodidata e por fim sabia como mandar pelos ares e para longe o seu cantar.
Ultimamente, não tenho ouvido os sonoros cantos do galinho. Por certo, bandeou para outro galinheiro, uma chácara, sítio ou mesmo residência de algum lavrador das redondezas, onde continua na sua missão de relógio do romper dos dias.
Me lembro do alvorecer nas fazendas e bairros rurais, quando galos madrugadores anunciavam a chegada de um novo dia. Um cantava aqui, outro respondia lá na frente, num sentimento de solidariedade. Parecia um canto transformado em conversa que ia rompendo as barreiras das matas, levado para rincões longínquos. Na medida que o sol despontava davam por encerrada a incumbência que cada um tinha e se punham nos terreiros como chefes compenetrados de suas famílias bem-comportadas.
O amanhecer na roça é um resplandecer da natureza, embelezada pelos cantos de passarinhos. Cada um com seus afinados acordes, nas matas ou nos quintais, em árvores floridas ou nos aramados que cercam divisas de residências.
Como é bonito se ouvir o canto de um solitário sabiá empoleirado em galho de uma laranjeira. De colorido simples, cinzento-oliváceo, branco, do campo, pardo ou avermelhado, são populares e bons cantores. O sabiá-laranjeira tem um canto nostálgico e escritores o cantam em prosa e verso.
Nessa espécie de pássaros tem o sabiá-cavalo, que deve ser um bom cavaleiro; o sabiá-cachorro, mas desconheço se seu canto é parecido com latido; não sei se o sabiá-ferreiro bate bem bigorna; o sabiá-tropeiro deve ser uma boa companhia dos condutores de tropas. Uma série de outras denominações por todas as regiões do Brasil. Tem até o sabiá-verdadeiro.
Nos entardeceres do campo, o cantar dos sabiás é como uma canção de seresteiro em noite de luar, sob a janela da namorada, ao som de violão, flauta ou violino.
Só no amanhecer na roça se pode ouvir o piar melancólico do inhambuxororó e do inhambuxintã, quando na procura das sementeiras de roçados.
Pintassilgos, papa-capins, bem-te-vis, tuins e outros pássaros, empoleirados em algum galho seco ou em revoadas, levam seus cantos ao longe dos sítios e fazendas. Formam uma orquestra solidária às bênçãos de um dia de felicidade. Somente quando o sol é mais forte se escondem à sombra de frondosas árvores para descanso reparador.
A chuva mansa como gotículas que batem no telhado é uma suave manifestação das nuvens que vão e vêm, enquanto o azul do céu fica escondido. As batidas das águas nas pedras da cachoeira soam nas madrugadas como lenitivo a uma noite de insônia.
Que saudade dos amanheceres na roça e dos encantos da natureza!

FLORES E TAPETES

Toalhas de crochê, curtas ou compridas, que se estendem pela mesa de jantar, completam um visual bonito e acolhedor em uma sala bem cuidada.
Esse comportamento é próprio das senhoras, que cuidam com muito gosto e carinho de todos os detalhes, e proporcionam aos familiares e visitantes aquela sensação de um estado de felicidade completo.
Um piano mudo e esquecido num canto da sala é a presença viva de que um dia emitiu pelos ares sons de consagrados autores, dedilhados por uma jovem candidata a solista, na interpretação de peças belíssimas assinadas por Chopin, Mozart, Beethoven e outros. Cansado, o piano pode servir para amparar finos bibelôs sempre enriquecidos com novas peças juntadas ao sabor dos tempos.
Console é aquela peça de madeira esculpida, de ferro batido ou de pedra, presa ou encostada à parede. Uma espécie de aparador sempre enfeitado com artefatos de cristal, flores e até fotografias que lembram casamentos, filhos e parentes próximos. Também faz parte de um ambiente bem cuidado.
Outro destaque de uma sala é o tapete, que dá um toque de distinção, de sobriedade ao ambiente. Pode ser simples ou sofisticado, liso ou florido, macio. Mas há um detalhe nas linhas de um tapete que envolve o emaranhado dos seus pontos e cruzamentos.
Não são apenas os labirintos que interrompem passos que se possam dar nas caminhadas tecidas. Podem revelar alegria, vivida no auge da felicidade, ainda que em instantes de recolhimento, quando a imaginação voa na conquista do espaço fantasioso. Mas podem, também, manifestar o outro lado do infinito pensar de uma ilusão sentida e que o tempo traz à memória com crueldade indesejável. Não estariam escondidos no meio dos pontos tortuosos laços misteriosos de uma vida conturbada e cheia de percalços? O que pensou quem os teceu? Teria sido em momentos de tristeza ou amargura? Quem sabe?
Experimente alguém seguir as trilhas coloridas bordadas em um tapete e chegará à conclusão de traços misteriosos, cheios de obstáculos, que cansam e iludem.
O tapete de uma sala de visitas é agradável aos olhos, pelo seu desenho e cor, mas enganam aqueles que querem desvendar seus labirintos.
Melhor mesmo é o tapete mágico dos contos orientais, que enfeitam sonhos e aguçam a imaginação em seus vôos fantasiosos.

SEM EIRA NEM BEIRA

As boas coisas que circulam pela internet podem ser relembradas, eis que muitas delas aguçam a curiosidade em torno de seu entendimento. Expressões que ficaram marcadas no tempo e relembrá-las sempre é interessante pelo que revela seu conteúdo.
Quando se fala “nas coxas” pode, em princípio, causar impressão não verdadeira. Entretanto, as palavras traduzem que as primeiras telhas usadas nas casas no Brasil eram feitas de argila, moldadas nas coxas dos escravos. Como os escravos variavam de tamanho e porte físico as telhas ficavam todas desiguais devido aos diferentes tipos de coxas. Daí a expressão fazendo nas coxas, isto é, de qualquer jeito.
No embalo desse significado encaixa-se aquele referente aos telhados de antigamente, que possuíam eira e beira, detalhes que conferiam “status” ao dono do imóvel. Possuir eira e beira era sinal de riqueza e de cultura. Não ter eira nem beira significava que a pessoa era pobre, estava sem grana.
Conta-se que “ficar a ver navios” tem a seguinte história: dom Sebastião, rei de Portugal, havia morrido na batalha de Alcacer-Quibir, mas seu corpo nunca foi encontrado. Por esse motivo o povo português se recusava a acreditar na morte do monarca. Comum era as pessoas visitarem o Alto de Santa Catarina, em Lisboa, para esperar pelo rei. Como ele não voltou, o povo ficava a ver navios.
Quem já não ouviu falar que alguém não entende patavina? Pois é. “Os portugueses encontravam uma enorme dificuldade em entender o que falavam os frades patavinos, originários de Padova, Itália. Sendo assim, não entender patavina significa não entender nada”.
Esta é de farmacêutico: dourar a pílula. Antigamente as farmácias embrulhavam as pílulas em papel dourado, para melhorar o aspecto de remédio amargo. A expressão dourar a pílula significa melhorar a aparência de algo.
E como se explica a expressão conto do vigário? Duas igrejas –– seriam de Ouro Preto –– receberam uma imagem de santa como presente. Para decidir qual das duas ficaria com a escultura, os vigários contaram com a ajuda de um burro. A explicação é a seguinte: colocaram o burro entre as duas paróquias e o animal teria que caminhar até uma delas. Conta-se que a escolhida pelo quadrúpede teve treinamento do seu vigário.
Violência em família deu origem ao “voto de Minerva”. A história registra que Orestes, filho de Clitemnestra, foi acusado pelo assassinato da mãe, que havia assassinado o marido Agamenon, com a ajuda do amante Egisto. No julgamento, houve empate, cabendo à deusa Minerva a decisão, que foi a favor do réu. Eis porque o “voto de Minerva” entrou para a história como decisivo em questões de empate em julgamentos

23 de maio de 2008

MOLECAGENS

Quando se é moleque, uma idade em que as responsabilidades ainda não fazem parte direta da vida, nada ou pouco se tem a pensar em termos de coisa séria. Realizadas aquelas obrigações corriqueiras exigidas pelos pais, próprias da capacidade de cada um, tudo é mais ou menos levado na brincadeira. É um tempo em que se pode fazer o pensamento voar e atirar-se a travessuras, pouco se dando a possíveis conseqüências que venham a acontecer. Na verdade, difícil é esconder algo de errado, porque o comportamento e a própria cara são delatores em potencial.
Chegada a época em que os estudos atingem a segunda fase, fácil é saber das necessidades de reuniões, para estudos em conjunto das matérias que já alcançam maiores dificuldades, distribuindo-se em residências diversas, isto é, uma vez e cada casa de aluno. Enquanto todos não estão presentes, um bate-papo para descontração, com cada um revelando aventuras do dia anterior, piadas e gargalhadas, que chamam a atenção daqueles que estão por perto.
Bem, hora de estudar exige seriedade de todos. Os assuntos são postos à mesa, discutidos até que se chegue a um entendimento comum. Claro que os debates quase sempre são acalorados, dado que a tese de cada um é defendida com argumentos convincentes.
Quando a reunião está mais quente chega a mãe de um estudioso, que é a dona da casa, para oferecer um cafezinho quente, acompanhado de bolo de cenoura, milho ou fubá. Mais um tempo para papo-furado. Quando percebem que todos os problemas escolares foram resolvidos, fecham-se livros e cadernos e canetas são guardadas. Como ninguém tem nada a resolver na vida, aparecem os momentos propícios para armações e brincadeiras. Pensamentos voam. Sugestões surgem. Definem-se as etapas. Mãos à obra.
O primeiro passo é saber quem se encarrega de começar as aventuras. Sempre tem alguém que é mais atirado e resolve fácil: “deixa comigo”.
Todos saem à rua. O ônibus aponta na esquina. Um deles sai correndo, movimentando os braços como interessado em apanhá-lo. O ônibus pára e ele continua a correr e vira a primeira esquina. De outra feita, o motorista pára, abre a porta e o malandrinho pergunta as horas.
Atendido, responde: “Obrigado, tio”. Claro que nem sempre o motorista, cansado e com fome, aceita esse comportamento numa boa e solta um palavrão, enquanto uns passageiros riem e outros ficam irritados.
Quantos pais não são iludidos por uma traquinagem do filho, que chega em casa com a mão sangrando e sustenta que caiu da bicicleta, rolou na rua cheia de pedras e feriu-se, mas a verdade é que ele tocou a campainha do vizinho próximo para sacaneá-lo e tenta sair correndo, mas se machuca naquelas flechas de ferro que encimam as grades das entradas dos jardins. O garoto faz cara feia, mas um pouco de iodo resolve o problema.
O comportamento dos moleques, não raro, chega mesmo a extrapolar das brincadeiras comuns e até parentes próximos podem ser alvos delas, como aqueles dois que a um descuido do tio abriram a porta do automóvel e acenderam um artefato com cheiro bem forte e característico de um pum. Imaginem quando o tio entrou no veículo. O cheiro infestou as proximidades.
E as traquinagens nas salas de aulas e nos corredores escolares, com apelidos aos professores e aprontadas aos mestres? Uns se fazem de desentendidos e outros não perdem a oportunidade para uma lição de moral.
Essas molecagens dos filhos os pais ficam sabendo após longo tempo. Quase sempre acontecem em reuniões familiares, com avós e netos presentes, quando cada um conta as peripécias de saudosos tempos de uma mocidade bem vivida. Todos riem e perdoam as brincadeiras e as mentiras bem urdidas, mesmo porque nada mais se pode fazer, pois nesses encontros o que vale mesmo são momentos de descontração e alegria.

DIA DA MENTIRA PERDEU A GRACA

Houve um tempo em que o dia 1º de abril –– consagrado à mentira –– era motivo de brincadeiras dos mais variados tipos: ingênuas, humorísticas ou carregadas de algum motivo que poderia transformá-las em verídicas por momentos, no decorrer de suas manifestações. Começavam em casa, provocadas por familiares, envolvendo crianças e dali saindo às ruas. Interessante que eram facilmente acreditáveis, porque transmitidas com toda seriedade, até que fossem reveladas ao ouvinte como uma pegadinha sem maiores conseqüências, pois essa era a verdadeira finalidade como comemoração da data.
Há uma justificativa para esse evento. Tantos mentirosos se consagraram através dos tempos e outros que os sucederam são facilmente encontrados pelas ruas da cidade. Deve ser pela persistência desse comportamento que foi instituído o Dia da Mentira. Uma comemoração meio estranha, mas justificável, pois eles merecem. Afinal, em meio a tantos dias comemorativos a acontecimentos os mais diversos, um a mais ou a menos não faz mal a ninguém, não é mesmo?
A gente sabe que muitos causos, ou a maioria deles, são envolvidos em situações nada verdadeiras. Não fosse assim, não teriam graça. Sérios ou ingênuos, são contados para distrair ou provocar risos. Quando alguém está rodeado de curiosos e há manifestações de alegria a todo instante é porque ali a patranha corre solta. E o patranheiro nunca é desmentido. Essa reação não é de bom tom. Por sinal, é aplaudido e solicitado a contar outras histórias do mesmo naipe.
Por outro lado, um cidadão metido a contar vantagens, normalmente, é um deslavado mentiroso. Mas aí é diferente, porque ele quer mesmo é aparecer, sem precisar botar melancia no pescoço. E onde se coloca o pescador? Nesse caso, o pescador fica de fora. Afinal, ele sempre tira fotografia ao lado do maior peixe da história e não pode ser desmentido, mesmo se for pescado no rio Piracicaba dos dias atuais. É a prova irrefutável de seu feito. E quem vai contestá-lo? Bem, por que se condenar os contadores de causos e os pescadores pelas histórias que contam, se tanta gente por aí mente de maneira deslavada, com a maior cara-de-pau, e nada acontece?
Mente-se com toda seriedade possível. E como se mente! Mente-se para encobrir uma verdade, que, às vezes, salta à vista. Não poucas vezes, mente-se para salvar uma situação.
Noutros tempos, o Dia da Mentira era esperado com muita expectativa e os brincalhões preparavam com certa antecedência qualquer situação que embaraçasse um amigo, culminando com muita gargalhada. Hoje, perdeu a graça. Não se fazem mais brincadeiras como antigamente para “pegar” um ou outro incauto. Assim visto, esse dia acabou ficando chato. É bem provável que isso acontece porque a mentira tem perna curta. Mas se o leitor tem saudade de épocas passadas e guarda consigo algo desse tipo, não perca oportunidade e ao primeiro amigo que encontrar na esquina tente uma pegadinha. Ele também vai se divertir, com certeza.
Mas não é novidade para ninguém que a mentira campeia de verdade pelo mundo afora.

QUITUTES CASEIROS

De tempos em tempos minha cachola abre o seu baú de guardados e me põe de volta ao passado, com recordações por demais agradáveis vividas no convívio familiar. Sabem os não muito antepassados que, antigamente, tudo era feito em casa. Não havia quase nada preparado industrialmente e colocado à disposição do consumidor. Como acontece agora. É só chegar no supermercado e uma visita às gôndolas resolve qualquer problema, mesmo que seja de última hora, por ocasião de uma visita inesperada. Muito particularmente, foram as famílias italianas, ou as delas descendentes dando continuidade, que trouxeram do país de origem comidas que acabaram incorporadas ao cardápio brasileiro, notadamente as massas dos mais variados tipos.
Naqueles tempos assava-se o pão no forno feito no quintal, nem sempre ao abrigo das intempéries. A dedicada dona-de-casa preparava a massa na cozinha, que ficava durante algum tempo em vasilha para que crescesse. Enquanto esperava o momento exato para assar, acendia o forno para o aquecimento necessário. E nem precisava de aparelho para saber se ficava no ponto exato. Era na base do olhômetro, pois o fogo provocava ondas externas e facilmente sabia-se que era a hora de enfornar. Nos bairros rurais usavam-se muito, e talvez ainda se usem, folhas de bananeiras para assentar a massa já transformada em diversos pães, de peso que oscilavam de 500 gramas para um quilo. Depois de certo tempo, a abertura da boca do forno era necessária para acompanhar a evolução do cozimento. Ganhando a cor esperada os pães eram retirados, utilizando-se de uma pá de madeira com cabo comprido. Alimento para o café da manhã por uma semana.
Quanta coisa deliciosa se fazia antigamente pelas mãos caprichadas das donas-de-casa. Aliás, dizia-se mesmo que eram mãos de ouro, porque tudo saía bem-feito. Meu pensamento me leva ao quintal de minha casa e vejo minha mãe colhendo goiaba, abóbora, pêssego, figo, laranja (falava-se em laranja azeda ou cavalo), mamão verde, batata e outras frutas para transformá-las em apetitosos doces. E os bolos? De fubá, de milho ou aquele coberto com fatias de bananas, que, se me lembro bem, em casa era chamado de “cufa”. Podiam ser bolos comuns, mas davam água na boca. E os pudins, os manjares brancos? Tem mais. O curau, a pamonha e o arroz-doce?
Já morando na cidade, minha mãe reunia minhas tias aos domingos para jogos de cartas. Inocentes, como escopas simples e de 15. Sem discussões. Era para passar o tempo e bate-papos prolongados, recordar o passado, falar de gente amiga, relembrar parentes que se desligaram das famílias e foram para longe. Depois de algum tempo, a jogatina era interrompida para a degustação de um gostoso “crostoli”, acompanhado de café feito na hora. Esse quitute era feito com massa aberta com rolo de macarrão (dizem que muitas mulheres também se utilizam dele para amansar marido, mas não tenho prova), depois transformada em lâminas estreitas e finas, cortadas em pedaços pequenos, fritas e salpicadas com açúcar cristal. Quem não conhece não sabe o que é bom. Só de escrever dá água na boca.
Ah, mas quantos quitutes saborosos se faziam no passado pelas mãos abençoadas das donas-de-casa! E isso não provoca um sentimento de saudade de quem viveu esse tempo?

CHARGES E TIRAS

Os jornais diários são um espelho dos acontecimentos que se registram diariamente pelos quatro cantos do mundo. Sobretudo na atualidade, com os avançados meios de comunicação, que possibilitam rapidamente a chegada das notícias. Nas capitais, inclusive, chegam a duas edições diárias, dado o grande volume do noticiário, informando os leitores, como se afirma, em cima da hora.
Atualmente, as empresas jornalísticas trazem cadernos dedicados aos mais variados segmentos da sociedade, distribuídos em política, economia, saúde, segurança e assuntos gerais, o que facilita o leitor diretamente naquilo que mais lhe interessa. Naturalmente com páginas especiais para editorias, que focalizam os principais assuntos do dia, além de espaço reservado a opiniões dos leitores, por meio de textos e cartas. Ainda no decorrer da semana distribuem cadernos de assuntos específicos destinados a empresários ou dedicados a diversas faixas etárias, feminina e masculina.
Esse é, na verdade, o objetivo principal dos diários matutinos e vespertinos, pois assim cumprem a missão de bem informar seus leitores, assinantes ou avulsos. Mas, além dos temas normais e aqueles que provocam polêmicas, os jornais trazem seções que divertem e têm, tenho certeza, uma imensidão de adeptos. Refiro-me às charges e tiras, que guardam um local especial nas publicações.
Como leitor do jornal “O Estado de São Paulo” me divirto com o humor do Frank & Ernest, Minduim, Recruta Zero, Turma da Mônica e, principalmente, d’O melhor de Calvin. É que este encarna a figura de um moleque travesso. É só olhar para a cara que ele faz na representação das mais diversas situações, que vão desde malandragem, tristeza, tentativa de desobediência aos pais e humor, quase sempre na companhia do seu amigo tigre, para a gente rir.
Bem, mas o que quero mesmo é destacar as charges e tiras que o JP apresenta diariamente, representadas por finas abordagens de seus autores, onde tem um lugar especial o caricaturista Erasmo. A página dois traz desenhos que dizem tudo e que, normalmente, dispensam palavras tão bem caracterizadas que satirizam um fato específico, sobretudo político, ou com chamadas humorísticas. Nos Quadrinhos, as Capivaras mantêm conversas interessantes, com registros de fatos que ocorrem no dia a dia. Por fim, a tira que semanalmente ocupa um espaço no caderno Tribos, com diálogos mantidos por duas senhoras, sempre de caráter alegre, mas também de fundo crítico.
É isso aí. As seções humorísticas dos jornais são para a descontrair os leitores, depois de passarem por tantas notícias nem sempre agradáveis, mas que devem fazer parte das finalidades comunicativas de um órgão da imprensa. E o JP presenteia diariamente seus leitores com interessantes mensagens de humorismo, por meio de hábeis manifestações de seus caricaturistas, proporcionando alegres momentos de distração.

13 de dezembro de 2007

NOS TEMPOS DE CRIANÇA



Quem não traz consigo lembranças agradáveis dos tempos de criança! As meninas com as brincadeiras de roda, bonecas, amarelinha, passa anel, peteca, pata-choca, pula corda, bom barqueiro e os meninos com os jogos de bolinha gude, pião, carrinho de rolimã, rolar dentro de pneus, empinar pipa e outros entretenimentos para passar o tempo. Brincadeiras inocentes até entre meninas e meninos. Brinquedos feitos pelos próprios meninos. Que tempos saudosos que a memória nunca apaga! Talvez seja até por isso que pais e avós gostam de viver os tempos de criança, carregando os filhos de cavalinho nas costas e imitando corcovos, bem como brincando dentro de casa de esconde-esconde pega-pega, “tanda”, forca e tanto quanto mais que dão uma canseira danada. E as crianças riem dos esforços e pedem mais.
Hoje as brincadeiras são outras. As crianças preferem desenhos animados exibidos pela televisão ou passar o tempo com vídeo game e jogos de computadores. São épocas diferentes.
Não adianta fazer comparações. Os tempos são outros. Antigamente, as crianças não tinham as facilidades encontradas hoje, com tudo colocado à sua disposição, mas havia outras opções para se divertir.
Pode ser saudosismo, mas gosto de voltar um pouco no tempo. Eu fabricava caminhõezinhos, pregando uma lata vazia de marmelada Colombo em tábua de caixa de sabão de vinte e sete pedaços. As rodas eram de latas de graxa de sapato e os eixos de galhos de árvores bem roliços. A cabine do motorista era obra criativa de pedaços de madeira. Com isso, eu ficava horas me divertindo no quintal de minha casa, carregando materiais dos mais diversos tipos.
E como conversar ao telefone? Fácil. Um pedaço bem comprido de barbante ligado nas extremidades por duas latas pequenas de extrato de tomate Elefante. Nem sempre era audível, mas eu falava mais alto e o amigo respondia do outro lado e se ouvia tudo muito bem, não fosse pelas linhas telefônicas improvisadas pelo próprio som que o vento trazia. E a gente se divertia matando o tempo com conversa fiada ou combinando traquinagens inocentes, como nadar no rio por perto ou apanhar frutas nos pomares vizinhos.
Para os jogos de futebol, praticado nos campos reservados a pastagens de animais, quando não em terrenos irregulares, de terra batida, as bolas eram feitas de meias em desuso, esburacadas nos dedos e calcanhares, de tamanho dessas usadas em tênis pelos profissionais da atualidade. Os gols eram demarcados com tijolos ou mesmo bonés e roupas dos atletas envolvidos nos jogos. Não havia necessidade da área do pênalti e nem impedimentos eram considerados. O que valia mesmo eram os gols marcados e a consagração dos artilheiros, nos abraços e incentivo das torcidas.
A pipa ou papagaio não era do tipo que hoje tem os mais diferentes tamanhos e desenhos. No meu tempo era feita de papel de seda, colorido, colado com grude de água e trigo em armação de vareta de bambu e a cauda com o mesmo material, mas em elos de diversos tamanhos. Nas linhas eram colocadas mensagens que se perdiam nos ares. O empinar das pipas fustigava acirrada luta entre os concorrentes, por que algumas não subiam e davam as chamadas cabeçadas e caíam no chão.
Bem, se os tempos são outros não há como mudar, tampouco como fugir. As brincadeiras das crianças têm sua época. É a vida que passa e as recordações se transformam em saudade, que a memória registra para sempre.081007.


LEMBRANÇAS DE CASAMENTO




Não são poucos os casais que guardam nos tempos de convívio objetos recebidos como lembranças de seu matrimônio. Trata-se de uma data que fica marcada pelos restos dos anos, aqueles que têm a felicidade de uma convivência sadia, de compreensão mútua, superando os percalços naturais de uma vida em comum que pode superar décadas.
Que casal não tem um álbum de fotografias que registra aqueles momentos de rara emoção! Sobretudo a noiva, sempre a mais bonita de todas, nos passos lentos, distribuindo sorrisos para os olhares que se multiplicam tantos são os convidados à sua espera, enquanto o noivo nas escadarias do altar transpira um sentimento de felicidade. Que noiva esquece os sons da marcha nupcial que soa suave pelos quatro cantos da igreja e fogem pelas brechas das portas e janelas e se perdem nos ares levada pelos ventos de bons augúrios? É bem verdade que as fotos, sempre bem guardadas, acabam por provocar uma saudade que não evita algumas lágrimas escorregarem silenciosas pelo rosto, às vezes, coroado pelos efeitos dos tempos. São registros saudosos, freqüentemente lembrados na presença dos filhos que completam a felicidade dos pais ao longo dos anos.
As fotos do casamento marcam um momento muito particular que também fica perpetuado na memória do casal. Mas há outros motivos e fatos para serem relembrados num tempo futuro.
No retorno às atividades normais, o casal tem que dar um jeito nos presentes recebidos por ocasião das bodas. É preciso colocar tudo em ordem. Cada um no seu lugar, separando os chamados “trens” de cozinha que serão usados diariamente. Pratos, panelas, jogos de xícaras, talheres e outros. Naturalmente, somados aos recebidos pela noiva no chá de cozinha, como guardanapos, toalhas, materiais e objetos de limpeza. São os chamados materiais de consumo, pois o estoque terá que ser reposto na medida das necessidades.
Por outro lado, há que se dar um tratamento especial aos presentes duráveis. Jogos de cristal, chá e café que se destacam com fios de ouro em suas bordas terão um lugar em móvel apropriado. Objetos de arte, como quadros e pratos pintados com toda delicadeza por um parente próximo, terão uma atenção particular e, em razão do seu valor sentimental, colocados em local bem seguro.
É uma pena, mas, embora todo o cuidado seja dado a esses objetos, é bem provável que durante a limpeza, necessária de tempo em tempo, alguns deles sofram uma queda e se despedacem no chão, principalmente com maridos descuidados, que normalmente dão uma mãozinha à consorte nessas oportunidades. Mesmo com compreensão mútua do casal, é um momento de tristeza.
Mas o tempo passa tão depressa e quando o casal se assusta já comemorou bodas de prata, de ouro e até diamante. A família, grande ou pequena, está criada. Cada filho tomou rumo na vida e daí não resta mais nada ao velho casal, senão passar um filme de todo esse tempo decorrido. Aí é que vêm as lembranças de casamento. Fotos e presentes trazem recordações que nunca se esquecem. O casal troca olhares e sempre algumas lágrimas quentes teimam em escorrer pelo rosto. Nessa hora, só mesmo um abraço bem apertado que a emoção provoca por uma vida de convivência feliz.261007

8 de setembro de 2007

O CIRCO


Uma das lembranças mais marcantes que a pessoa carrega dos tempos de criança é a do Circo. A expectativa pela presença do palhaço, a atração maior para seus desejos de sonhos e fantasias. O palhaço, com suas estripulias e brincadeiras ingênuas, que chora e faz rir. Nas arquibancadas de madeira, o menino ri, se encolhe, rói as unhas e, por fim, bate palmas, extravasando sua alegria. Na segunda-feira, quando o Circo vai embora fica triste. Que fazer! O que salva é que no ano que vem o Circo estará de volta.


OS NOVOS VIZINHOS


Nas mudanças de residências que as pessoas fazem na vida, normalmente variadas em números, sempre chamam a atenção as novas e futuras amizades. Conhecer é um despertar de expectativas, porque nunca se sabe o que pode acontecer, sobretudo, em se tratando da curiosidade que alimentam as novas vizinhas.
Já se sabe que as transferências de domicílios são feitas durante o dia e durante o dia os vizinhos estão trabalhando, cumprindo seus compromissos profissionais, ao passo que as vizinhas guardam um tempo para espionar a nova família que chega, enquanto cuidam, zelosamente, de suas tarefas domésticas.
Pois bem. Algumas vizinhas, discretas, preferem o silêncio, mas esticam olhares curiosos por detrás das janelas entreabertas. E se recolhem assim que a nova vizinha também as espia disfarçadamente.
Outras varrem as calçadas e batem papo, enquanto olham furtivamente em direção às
tralhas que são descarregadas. Nunca deixam de registrar alguns comentários dirigidos à vizinha que chega, sobre o penteado, os sapatos, o vestido, a pintura, se é simpática ou não.
Tem as que aparecem nas portas, com membros da família e, sem cerimônia, conversam em voz alta, chamando a atenção como que desejando puxar assunto com os que chegam.
As que regam o jardim e molham vasos ou chegam terra a um pé de rosa vão se aproximando e os recepcionam simpaticamente, desejando-lhes boas vindas, oferecem ajuda, ficam à disposição para qualquer pedido e não se furtam a convite para um café coado na hora, acompanhado de fatias de bolo. Chamam até as crianças para brincarem com os novos colegas.
Essa troca de olhares, no silêncio ou nas conversas discretas, está ligada aos primeiros contatos de um compromisso de amizade, íntima ou não, que será firmado num futuro imediato.
Depois de tudo isso, a formação de um novo círculo de amizade está relacionada ao comportamento a que se predispõem as famílias. Claro que ninguém aprecia aquele entra e sai em casa, principalmente quando da novela, do noticiário ou de um filme dos mais badalados. Tampouco o costume de se emprestar um ovo, uma colher de açúcar, uns pingos de óleo, uma xícara de trigo ou algo parecido.
Perdoados certos inconvenientes, não são poucas as famílias que preferem um contato bem discreto. Mantêm a amizade, se cumprimentam, conversam até animadamente, participam de reuniões, mas tudo na base do necessário, das obrigações do momento. Isso não é bom entre as pessoas extrovertidas, que apreciam bate-papos animados e encontros festivos. Tudo é levado em conta na convivência que será mantida a partir da chegada dos novos vizinhos.
Não duvido que essas observações tenham passadas desapercebidas de quem entra para um novo convívio social. É uma recepção curiosa, mas não deixa de ser uma saudação.

OS SANTOS REMÉDIOS


Sempre é bom ouvir comadres. Não apenas as que seguram os filhos em batizados, mas também aquelas que se fazem amigas em encontros casuais, provocados por viagens, passeios, ônibus ou parado em um canto qualquer, aguardando a chegada de um amigo. Ou, então, nessas barracas de artigos artesanais, bordados, rendados e outras utilidades muito apreciadas pelas donas de casa.
Nessas oportunidades, é só dispor de um tempo, que pode se alongar por horas, as conversas ganham uma extensão sem limites, porque se fala de tudo. Daí a pouco, até parece que os contatos sugerem uma amizade que vem de anos, ainda que isso não seja realidade. Se pessoas conhecidas que se reencontram então é um tal de matar saudade, rememorar fatos, procurar saber por onde anda uma amiga não vista há anos, se casou, se tem filhos, onde mora, dos tempos escolares, se fulana está viva ou não e assim por diante.
Duvido que isso não ocorra com todas as
pessoas.
Quando isso acontece, dificilmente deixa-se de contar um caso, um acontecimento, peraltices de filhos traquinas, uma doença, própria ou de alguém que se conhece. Parece que se encontram assuntos que dão pano para mangas e é um nunca mais acabar de receitas que se constituem em verdadeiros santos remédios.
Sabe-se que gente do interior se apóia em remédios caseiros, chás, emplastros, pomadas e outros preparados para resolver problemas de saúde. Não porque são apenas providências urgentes, como também pelo fato de que a procura de um médico nem sempre tem a rapidez necessária ou pode ficar para o dia seguinte. O que é preciso é resolver na hora uma dor lombar, de estômago, de cabeça, de barriga, contusão, um corte no dedo, um calo que atormenta, um olho de peixe ou outro incômodo qualquer. Para isso, a comadre está sempre ao lado, na vizinhança e o atendimento pode ser através de uma cerca, por cima do muro, em visita em casa. Quem morou em fazendas ou bairros rurais sabe muito bem como fazer isso. Claro que quando a coisa é séria dá-se um jeito para tudo, porque sempre se encontra um amigo por perto para resolver a situação.
Interessante que, nessas ocasiões, fica-se sabendo de tudo, descobrem-se os mais intrincados produtos para as soluções desejadas. Às vezes, plantas bem conhecidas, mas que não se sabia de seu uso para debelar doenças, são plantadas e oferecidas para que sejam cuidadas em casa e fiquem à disposição para qualquer emergência.
E quando a conversa parte para assuntos sentimentais? Um namoro mal compreendido, uma paixão frustrada ou uma traição inesperada? Não falta mesmo recomendação contra inveja, mau-olhado, olho gordo, ciúme ou outro motivo que esteja provocando aborrecimento à pessoa que espera um conselho. Nesse caso, valem muito "simpatias", feitas das mais variadas formas, para curas certas.
Claro que não vou adiantar aqui o nome de nenhuma planta que se transforma em remédio e que produz a cura de qualquer mal, porque essa não é a minha área. Eu gosto é de ouvir, registrar as conversas, os assuntos que dominam esses encontros amigos. Afinal de contas, o cronista vive disso e não pode perder oportunidades como essas, não é verdade? Então, ouço e escrevo. Isso não faz mal algum.






15 de agosto de 2007

CARTA A UM PAI QUE SAIU DE CASA


Sabe, pai, eu não me esqueço do dia em que você saiu de casa. E nunca mais voltou. Fico sempre pensando porque isso aconteceu. Mesmo depois de tanto tempo. Mesmo depois que me fiz homem, já com a consciência de que isso acaba sendo normal na vida de toda pessoa. Resolvi procurar você, pai.
Então, voltei meu pensamento ao passado, num sonho. Você me pegando pelas mãos, me ajudando a dar os primeiros passos, me conduzindo para frente, para o futuro, falando para não olhar de lado, abrindo os braços para me equilibrar.
Ainda pequeno, quantas vezes acompanhei você em pescarias, naquele ribeirãozinho que me parecia algo enorme, com suas corredeiras violentas, com uma fundura que metia medo. E era um simples, manso e inofensivo riozinho onde aprendi a nadar e depois me orgulhava em passar de uma margem a outra, numa arrancada só.
Lembro-me do primeiro peixinho que fisguei. Todo feliz apanhei-o com as mãos e tomei tremenda ferroada. Era um mandizinho amarelo, mas com um ferrão que me fez sentir terrível dor e chorar bastante. Você riu da minha inocência. Depois, quantas ferroadas levei na vida!
E você, pai, saiu de casa e nunca mais voltou. Eu sempre achava que você voltaria.
Fui crescendo. Como a maioria dos garotos, comecei a jogar futebol. Orgulhoso, tirei a primeira fotografia com a camisa do clube. Lembra-se? Você me olhou feliz, talvez, pensando que ficaria um craque, como você. Ainda guardo com muita saudade aquela foto.
E o tempo foi passando. Ah, esse tempo que passa inexorável!
Bem, pai, você sabe que constitui a minha família. Também ensinei orgulhoso cada um de meus filhos a andar. Como você fez comigo. Passo a passo. Pelo menos tentei passar para eles o que aprendi com você. Um rumo certo na vida. Isso me faz feliz, pai.
E como o tempo passa rápido! Quando se é moço, não se vê a hora de chegar o domingo, o aniversário, o Ano-Novo. Depois, ah, não dá para fazer o tempo parar.
Então, pai, resolvi parar um pouco em frente ao espelho. O pente deslizava mais rápido. Começou a aparecer um fio de cabelo branco aqui, outro ali. Uma ruga na testa, outra no canto dos olhos. Lembrei-me de você, quando eu era jovem. Mas eu não sabia porque nasciam os cabelos brancos e nem porque o rosto ficava marcado por rugas.
Lembro-me o dia que você saiu de casa, pai, e nunca mais voltou. Eu sei onde você mora. É uma casa que não tem o luxo daquelas construídas nas vizinhanças. É humilde, nem janelas tem, com uma porta só, por onde, de vez em quando, entra uma pessoa. Mas abrem e fecham a porta tão depressa, que nunca vi você lá dentro.
Sabe, pai, neste Dia dos Pais fiquei um tempão em frente sua casa. Está bonita, pintada de novo. Mas, pai, fiquei muito triste. O pintor cobriu de tinta o seu nome.
Ah, pai, como é triste saber que você não voltará nunca mais.

31 de julho de 2007

O MENINO DA ESTÁTUA


Aquela estátua de mármore não era uma representação figurativa erguida na rua deserta. Provavelmente, homenageando alguma alma feminina. O menino, cansado de fugir, aconchegou-se em seu colo. Ao vento, que a tornava mais fria, embalava o sono. Faltavam-lhes as roupas. Pouco importava. A imaginária canção de ninar os alimentava no carinho do amor.
Ele olhava aquele rosto angelical e retribuía com um sorriso de inocente. Por que estavam a sós? Ela bem que sabia. Mas preferia transmitir com o olhar de mãe a certeza de sua missão. O abandono era circunstancial. Nem os cabelos os separavam. Compridos e loiros, dela. Encaracolados, curtos e escuros, dele. Sentiam-se seguros como os fortes.
A sombra amiga os reconfortava e o perfume das flores os envolvia nos laços eternos do profundo amor a que se entregavam. A troca recíproca de sentimentos os afastava da solidão. Eram solidários e cúmplices de um momento de desventura.
O tempo, no caminhar implacável, foi abreviando-lhes a vida. O sol e as chuvas desbotando o olhar e danificando os corações. A troca de sorrisos foi perdendo o significado mais forte e minando-lhes as forças. O ninar não lhes dava mais descanso.
Na última vez que se olharam, a tristeza embruteceu os semblantes. Os olhos fechados não eram de quem dormia. Ela só parou de embalar quando sentiu frio aquele corpo franzino.
O menino parecia sorrir.

GUIA TURÍSTICO



Os passeios, de qualquer tipo, proporcionam uma gama enorme de distrações, não bastasse a satisfação íntima do contato com o novo. Há sempre uma surpresa, o belo, a natureza, o desconhecido, a sensação de alegria e felicidade, a revelação, a identidade de valores. Quando se trata de excursão, que reúne pessoas das mais variadas formações profissionais, torna-se mais interessante, por uma série de razões, sentida nos dias de convivência. Os passeadores sabem muito bem disso.
Agora, tem o seguinte: se os passeios são monitorados por guias pouco comunicativos e que desempenham suas atividades por mera obrigação, tudo pode se tornar frustrante. Nada pior do que um roteiro em que a orientação dos locais a serem visitados é feita apenas por um palavreado burocrático, de puro efeito técnico, em que os turistas simplesmente ouvem, não perguntam, não têm liberdade de um contato mais ligado à troca de impressões, o que, na verdade, é o que mais desejam.
Faço aqui um pouco de digressão, para um paralelo entre valores diplomados e aqueles que simplesmente se revelam possuidores de uma capacidade inata, para desenvolver suas atividades. Há pessoas que nascem com o dom para um determinado ofício e que, por razões diversas, não dispõem de recursos para habilitação profissional, mas procuram se inteirar do novo e enriquecer conhecimentos práticos.
Volto aos passeios.
Um guia turístico desembaraçado, cheio de prosa, que conta piadas, fala mentiras das grossas, põe os turistas à vontade, deixa-os descontraídos, torna o ambiente alegre e provoca uma sensação de felicidade em todos os que o rodeiam. Às vezes, os assuntos mais simples ganham enorme importância, pelo enfoque que lhes é dado ou pela maneira como são apresentados.
Claro que os lugares pitorescos são os mais visados, como praças, com os vultos históricos perpetuados em estátuas, museus, sobretudo de figuras que fizeram a história do país, igrejas, universidades, zoológicos, praias etc e tal. De passagem, mansões de personalidades ou empresários que sustentam a liderança política e econômica da região, ou ainda que se destacam em artes, como música, teatro, pintura, literatura, escultura, cinema e outros movimentos culturais.
Mas de um roteiro tão interessante quanto lógico os turistas não escapam. Refiro-me às paradas em locais onde o comércio artesanal se transforma em pontos obrigatórios de visitas. Os guias alardeiam a necessidade de um descanso ou lanche rápidos e enfatizam a qualidade dos produtos que ali podem ser encontrados: os chamados suvenires, representados por peças de madeira, porcelana, barro, colares, pulseiras, brincos de pedras ou sementes, rendados, além de doces e licores de todos os tipos e gostos, lambe-lambe para uma foto e uma infinidade de outras lembranças. E até repentistas para aquela saudação tão formal, na repetição de versos e, depois, o passar do chapéu para algumas moedas. Afinal, eles vivem disso. E tem alguns guias que são espertos, pois a uma distância desses locais transmitem um sinal característico, principalmente buzina, de aproximação dos excursionistas, como dizendo "estamos chegando". Não é preciso dizer porquê.
Mas, em passeios, é isso mesmo. Tudo é festa!

IMAGEM DO TEMPO

O ambiente não é alegre. Observo as pessoas que conversam baixinho. Parece que não querem incomodar quem é o centro daquela reunião inesperada.
Esse é um momento para reflexão. Voltar no tempo. Trazer à memória dias felizes. A saudade não é pra isso?
Mas, por que será que a vida segue um caminho cheio de obstáculos, às vezes tortuosos, por onde as pessoas tropeçam no próprio destino?
De repente, tudo se acaba e aquela reunião é esquecida. Pra mim, não. Volto no tempo. Relembro aquele momento triste. Uma imagem aparece à minha frente. Tento manter um diálogo. Meu pai não responde.

MESA DE BAR


O rapaz estava sentado à mesa do bar. Um copo vazio à sua frente. Solitário, triste, pensativo. De longe, alguém o observava. Algo de errado poderia estar acontecendo com o moço. Conhecido e sempre alegre em roda de amigos. Pelos cantos, cochichavam. Uma desilusão? Um amor incompreendido? Uma saudade?
Passava os dedos pelas bordas do copo. Ouviu dizer que esse procedimento provocava sons e uma música poderia afogar suas mágoas.
A todo instante, consultava o relógio. Levava-o ao ouvido ou sacudia-o, na incerteza de estar funcionando ou não.
A curiosidade levava os serviçais a repetir seu gesto, de maneira automática. Ao mesmo tempo aguçava-lhes a expectativa de que alguém pudesse chegar a qualquer momento. Alguém do relacionamento íntimo daquele jovem solitário. Talvez, para a passagem de uma noite romântica. Ou do desenlace de uma paixão incompreendida.
Um garçom foi até a sua mesa. Não, o rapaz não queria beber nada. As conversas próximas não lhe chamavam a atenção e tampouco mexia com seu pensamento, fixado bem longe da alegria daqueles que ficavam à sua volta.
Momentaneamente, dobrou a cabeça, com as mãos amparando-a junto aos ouvidos, como que quisesse ficar alheio ao burburinho ao lado. A tristeza era mais forte naquele momento, talvez de sentimento, ou de reflexão.
Aos poucos, aquele recanto bucólico, que provocava sonhos, que encantava casais de namorados, foi ficando abandonado.
Já nas altas horas da noite, o garçom bateu-lhe nos ombros. Ele se despediu sem nada dizer. O vazio do copo era pura imaginação para contar esta história.

NOITE ESCURA


À minha frente vejo três velas em chamas. Uma grande, uma média e uma pequena. Foram acesas porque lá fora a noite está escura. Não por razões da natureza, mas porque houve um blecaute na região. Isso sempre acontece e, não raras vezes, a volta da energia está pra mais de hora. Quando chove, trovões incomodam pelo medo que provocam, depois de relâmpagos assustadores, e o que acontece é que apagões são uma constante. Mas a noite está bonita. Até a lua manda lá do céu recados convidativos para namorados românticos. Por isso, é estranho o que está acontecendo.
Deixo esse problema da escuridão por conta de quem corre a responsabilidade de resolvê-lo. Que nem sempre é rápido.
Observo as três velas. Parece que está havendo uma competição, uma querendo fazer com que a chama seja mais bela que outra. E se lançam altas e brilhantes. Um leve vento que atravessa os vãos da janela provoca uma sessão de bailado e elas parecem dançar naquela ginga que envolve todo o salão.
Minha imaginação é aguçada na apreciação daqueles movimentos que as chamas transformam em festa. Penso em dar-lhes vida, provocá-las para me darem instantes de entretenimento, distração, enquanto aguardo a chegada da luz artificial.
Na medida que o tempo passa, as chamas vão corroendo seus corpos frágeis. Vão cedendo ao impacto que as esperanças desvanecem. Mas lutam e revivem instantes felizes, como se a luz que emanam restabelecesse a própria vida.
Mas, noto uma diferença brutal nas três. A grande e a média mostram-se com força maior e não querem perder o vigor que ainda as faz viver. Ficam alheias e ignoram a companheira do lado.
Volto meus olhos para a menor e percebo que a sua luta é insana, provavelmente vislumbrando um final próximo e triste. Penso um instante como é a vida. Enquanto jovem, vivendo a felicidade que a fantasia o alimenta, tudo são rosas, vermelha se revela o amor ou outra cor que renove a esperança para um futuro feliz. Nessa distração, esqueço um pouco a pequena vela se consumindo e vou até a janela para me socorrer dos raios da lua numa tentativa de dar-lhe forças para superar os desafios na luta destemida em que está entregue. Pareço-me tão fraco como ela e sem coragem para estimulá-la em seus momentos agonizantes. Na verdade, não sei o que fazer e me entrego às fraquezas humanas.
Que luta triste acompanho. As chamas esforçam-se para lhe dar esperanças. Mas ela parece a cada instante mais fraca. Num derradeiro esforço, junta-se a outras chamas provocadas por restos de velas no fundo do castiçal, como se fossem mãos em oração aos céus, num pedido de salvação. As labaredas se confundem em abraços de despedida. Aos poucos, apagam-se, num último suspiro.
As outras duas velas? Não deixaram história para contar.